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O novo ambiente de pragas: insetos e ácaros

Os insetos e os ácaros (que no texto serão chamados de pragas) são os maiores competidores do homem pela hegemonia da terra. Nesta frase, nenhum exagero está contido, pois, se o homem dominar a maioria e, mesmo extinguir alguns dos animais terrestres, as pragas, como grupo, permanecem com a única barreira biótica ao domínio humano total. Jeannel havia proposto que, se o homem representa o clímax evolutivo da inteligência, certas espécies de pragas representam o clímax evolutivo do instinto. O êxito deste conflito (a inteligência humana versus o instinto das pragas) é imprevisível porque a capacidade adaptativa das pragas é legendária.
As pragas são os organismos mais variados da terra, constituindo cerca de 70% de todos os animais, e estima-se que a metade destes sejam espécies fitófagas, que se alimentam de vegetais. Nestes animais, a herbivoria ou fitofagia evoluiu a partir de outros hábitos alimentares, em espécies que, a princípio, se alimentavam de material em decomposição (saprófagos). Cabe destacar que nenhuma espécie de plantas em seu ambiente é atacada por todas as espécies de pragas, e não é comum que uma praga, em seu limites geográficos, se alimente indiscriminadamente de todas as plantas.
Simples observações demonstram que as pragas vivem associadas com certas espécies ou partes de plantas e, assim, são conhecidas por nomes comuns (especialmente entre os insetos), em inúmeros exemplos: lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis), tamanduá-da-soja (Sternechus subsignatus), lagarta-do-trigo (Pseudaletia sequax), pulgão-dos-cereais (Schizaphis graminum), pulgão-da-aveia (Rhopalosiphum padi), lagarta-das-maçãs (Heliothis virescens), bicudo-do-algodoeiro (Anthonomus grandis), boca da cana-de-açúcar (Diatraea saccharalis). Porém, recentemente, ao ser chamada pelo seu próprio gênero em vez de um nome comum, a lagarta Helicoverpa intriga pesquisadores, consultores e agricultores, tornando-se muito especial, talvez por se alimentar de plantas variadas como algodão, canola, feijão, laranja, milho, soja, sorgo, tomate, trigo (além de mais de uma centena de plantas cultivadas ou não).
Num passado bem distante, para os primeiros seres humanos – caçadores e nômades – as preferências alimentares dos insetos e ácaros fitófagos passaram despercebidas e a relação entre estes grupos primitivos e estas pragas se limitou a perturbações ou doenças causadas por moscas, piolhos, pulgas e ácaros. O assentamento permanente destes grupos primitivos exigiu alimento disponível nas imediações destas comunidades e, assim, o ser humano passou a viver em associação com as plantas. Após a domesticação das plantas – ao redor de 10.000 anos passados – os hábitos alimentares dos insetos chamaram a atenção dos humanos, pois é conhecido por registros históricos e bíblicos que, certos insetos, como os gafanhotos, devastavam as plantações, expondo as antigas populações humanas à fome.
O crescimento, desenvolvimento e reprodução dos insetos e ácaros depende diretamente da qualidade e quantidade do alimento usado. Portanto, entre as pragas e plantas as relações tróficas ou de alimentação são fundamentais. Além de alimento, as plantas representam um lugar para as pragas viverem e se reproduzirem, e estas se beneficiam através da polinização. Apesar de que as plantas representam uma fonte de alimento evidente e farta nas comunidades terrestres, o manejo de algumas pragas fitófagas é indispensável com o desenvolvimento da agricultura contemporânea. Espécies com hábitos de pragas são importantes pelo impacto que causam na economia em consequência dos seus hábitos alimentares, podendo destruir alimentos e fibras antes e após a colheita.
O desenvolvimento de técnicas agrícolas modernas como a mecanização, o uso de defensivos e plantas de elevado potencial produtivo, tem permitido o cultivo de áreas extensas e a utilização de um número restrito de espécies vegetais, diminuindo a diversidade vegetal. É o caso da soja no Brasil, com aproximadamente 30 milhões de hectares plantados, caracterizando um cenário de extensas áreas com uma só espécie de planta. A agricultura praticada atualmente tem se caracterizado por uma alta produtividade e um alto custo energético (a razão produtividade/biomassa é maximizada) e, consequentemente, a evolução do sistema em direção ao equilíbrio é prejudicada. Assim, estas modernas técnicas de cultivo contribuem para a instabilidade destes sistemas, pelo maior uso de defensivos agrícolas (herbicidas, fungicidas e inseticidas), para conter a competição das plantas daninhas, o ataque das doenças, dos insetos e dos ácaros, evitando a diminuição do crescimento e da produtividade das plantas. No caso específico dos insetos, é cada vez mais comum o surgimento de novas pragas, como as lagartas Plusiinae (falsa medideira) e Heliothinae (Helicoverpa armigera), que para serem controladas satisfatoriamente necessitam de grandes volumes de inseticidas, podendo desencadear o surgimento de resistência destes insetos aos inseticidas, extinção de inimigos naturais – caso já confirmado da doença branca de lagartas causada pelo fungo Nomuraea rileyi – e maior poluição ambiental.
Mais recentemente, a biotecnologia moderna, ou seja, aquela que faz uso da informação genética para aprimoramento de sementes, surge para desenvolver plantas mais adaptadas às condições agrícolas locais. O crescimento dessa tecnologia deu-se a partir de 1996, quando foram comercializados e plantados algodão Bt e milho Bt em milhares de hectares nos Estados Unidos. Atualmente, o milho Bt é a planta transgênica mais cultivada no Brasil, ocupando aproximadamente 85% da área total cultivada com milho. Várias marcas de milho Bt são disponibilizadas anualmente para uso comercial, com ação inseticida contra lagartas de lepidópteros como a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda), a broca-da-cana-de-açúcar (Diatraea saccharalis) e lagarta-da-espiga (Helicoverpa zea).
A partir da safra 2014/15, a soja Bt é a planta transgênica que vai expressar um aumento significativo em sua área cultivada, devendo ocupar ao redor de 25% da área cultivada com esta oleaginosa no Brasil. Também várias marcas de soja Bt serão disponibilizadas para uso comercial, com ação inseticida contra lagartas de lepidópteros como a lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis) e as lagartas Plusiinae (falsa medideira) e Heliothinae (Helicoverpa armigera). Com o uso dessa tecnologia, independentemente do local ou época em que a lavoura for plantada, a toxina – proteína letal aos insetos alvos – estará distribuída por toda a planta e durante todo o ciclo da cultura.
A adaptação das pragas a novas plantas hospedeiras acontece rapidamente e a pressão dos insetos e ácaros sobre os cultivos comerciais tem tendência de aumento à medida que as plantas de soja Bt vão sendo usadas através dos anos pelos produtores. A mudança dos insetos, especialmente os sugadores (percevejos, tripes e mosca branca), e ácaros para a soja Bt poderá ser evidente já nos primeiros anos de uso, em algumas regiões produtoras, com ataque em todas as fases da planta. Dentro deste novo cenário, a soja Bt deve ser adotada como parte do MIP (Manejo Integrado de Pragas), em que uma das principais ferramentas é o monitoramento constante da área. Por isso, em locais de alta pressão de pragas, inclusive de lagartas, e em determinados cultivares pelos quais as pragas apresentem uma maior preferência, pode vir a ser necessária uma complementação com inseticidas em tratamento de sementes e foliares específicos.
 Diversos fatores podem afetar a produtividade de uma planta Bt, tanto de soja como de milho, entre eles, o ataque de pragas. Assim, mesmo que estas plantas apresentem elevada tolerância a algumas lagartas específicas, a complementação com o uso de inseticidas poderá ser necessária para minimizar o dano ocasionado pelas pragas e preservar o potencial produtivo destas plantas, que tiveram origem em sementes poderosas.
Fonte:  Cultivares

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